O aborto ilegal é uma violência contra as mulheres

Nós defendemos que o aborto ser ilegal é per se uma violência contra a mulher. Nesse texto da Silvia Badim (Doutora em saúde pública pela USP) originalmente publicado no blog Biscate Social Clube, a pesquisadora expõe com muita clareza os nossos argumentos.

– O aborto já é feito no Brasil. Entre 800 mil e 1,5 milhão de mulheres o realizam todos os anos.

– Jogar essas mulheres na clandestinidade é colocá-las em situação de risco de morte e de violência.

– Jogar o problema para debaixo do tapete só gera medo e desinformação.

::

As mulheres abortam. A todo tempo. Todo mundo conhece alguém. Todo mundo conhece um caminho. Todo mundo já fez, já passou, conhece alguém que passa, ou passará. Óbvio, assim, bem óbvio. E no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.

É, o aborto mata mulheres. E, quando não mata, deixa dolorosas marcas físicas e psíquicas nas mulheres que precisam se submeter a uma clandestinidade violenta para terem acesso, e direito, sobre seu próprio corpo. Sim, falar sobre aborto é falar sobre direito da mulher. Direito à dignidade, à integridade física, e à saúde.

O Artigo 196 da Constituição Federal, por exemplo, estabelece que o direito à saúde é um direito integral e universal de todos os cidadãos deste país. Um direito que passa pelo direito à prevenção, recuperação e proteção da saúde. Bom, não seria digno, justo, e – até – legal, garantir que as mulheres que desejam fazer um aborto o façam de forma segura, sem riscos à sua saúde? Direito Constitucional, baby. Que só não é garantido porque vivemos, lamentavelmente, em uma sociedade hipócrita, permeada por velhos moralismos religiosos.

Imaginemos uma cena corriqueira, que está aqui entre nós, nos cotidianos de todos os cantos: uma mulher engravida e não quer, não pode, ou não consegue, levar essa gestação adiante. Susto, medo, dúvida, assombro. Coragem, força, luta. Como essa mulher faz para dispor do seu corpo como bem entender?

Bom, se essa mulher é rica, ou tem grana, fica mais fácil: paga-se o conforto e a segurança para o procedimento abortivo. Sim, aborto também é uma questão social e econômica. Quem pode pagar, se dá melhor. Claro, capitalismo é capitalismo na legalidade ou na clandestinidade. E é dessa desigualdade que ele se alimenta. Então, se tem dinheiro na jogada, a violência é menor. Ampara-se a mulher, minimamente. Faz-se o aborto com maior segurança. Claro que isso não impede que a mulher sofra a violência moral que permeia essa discussão toda: o julgamento, o dedo em riste, a vergonha, o dano psíquico. Marcas que doem sempre, como uma cicatriz que não se fecha. Mas se tem grana, dói um tanto menos. Porque o desamparo da saúde gera violências ainda maiores.

E se a mulher não tem dinheiro? Bom, aí é onde a realidade é ainda mais cruel. E é aqui que mora a maioria da população brasileira. Aqui a clandestinidade é marcada pela falta de assistência e pela violência física. Ela aborta sem qualquer segurança, e sofre no corpo a posição de um pseudo Estado laico, que não garante seu direito de escolha. A mulher vai atrás de um remédio no mercado negro, um remédio bem fácil de conseguir em qualquer rede ou feira livre desse país. Ela vai atrás de uma clínica de fundo de quintal. Ela se submete a receitas caseiras perigosas. Ela aborta. E aí meu amigo, ela sofre uma violência imensa, sem que nossos olhos viciados consigam ver de perto o tamanho do problema.

E ele é grande. Os relatos dos serviços de saúde que, infelizmente, não constam em dados científicos, se repetem. As mulheres chegam doentes aos hospitais. Muitas, esvaindo-se em sangue, em desmaios, em dor dilacerante. Muitas, perdendo seus órgãos reprodutivos e, quiçá, outros mais. Muitas em infecção profunda. E muitas outras, mas muitas outras mesmo, em quase morte. E elas morrem. E nesse percurso sofrem preconceitos e discriminações por parte dos profissionais de saúde, assistentes, secretários, e tantos outros que se recusam, até, a atenderem essa mulher “criminosa”.

Dados da OMS estimam que, no Brasil, a média de abortos anual é de um milhão. É, acreditem. Um milhão. Temos também as estimativas do Ministério da Saúde, que entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetem ao procedimento anualmente no Brasil. E a cada dois dias, uma mulher (sem recursos) morre em decorrência do aborto. E a gente continua fingindo que este não é um sério problema de saúde pública.

Como diz o obstetra da Universidade Federal de São Paulo Osmar Ribeiro Colas: “Quando cai um avião ficamos chocados, mas há dois Boiengs de mulheres caindo por dia e ninguém fala nada”. Lamentável, certamente. E eu lamento todos os dias, juntando forças para seguir na luta pelo aborto seguro e legal no Brasil.

Vamos seguir mais um pouco?

A Pesquisa Nacional sobre Aborto no Brasil – PNA, empreendida por Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília e membro da ANIS – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, e por Marcelo Medeiros, desta mesma entidade, revela que:

…o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar quarenta anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto. Tipicamente, o aborto é feito nas idades que compõem o centro do período reprodutivo feminino, isto é, entre 18 e 29 anos, e é mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional. A religião não é um fator importante para a diferenciação das mulheres no que diz respeito à realização do aborto. Refletindo a composição religiosa do país, a maioria dos abortos foi feita por católicas, seguidas de protestantes e evangélicas e, finalmente, por mulheres de outras religiões ou sem religião” (Diniz e Medeiros, 2010. P. 964. In: Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna. Ciência & Saúde Coletiva, 15(Supl. 1):959-966).

E continuam os autores:

“O uso de medicamentos para a indução do último aborto ocorreu em metade dos casos. Considerando que a maior parte das mulheres é de baixa escolaridade, é provável que para a outra metade das mulheres, que não fez uso de medicamentos, o aborto seja realizado em condições precárias de saúde. Não surpreende que os níveis de internação pós-aborto contabilizados pela PNA sejam elevados, ocorrendo em quase a metade dos casos. Um fenômeno tão comum e com consequências de saúde tão importantes coloca o aborto em posição de prioridade na agenda de saúde pública nacional” (p. 964).

Deixemos o moralismo de lado, pelo menos um pouco. Todas as mulheres abortam, até as católicas e evangélicas, segundo a PNA. Não é mais possível evocarmos direitos de um possível feto em detrimento do direito da mulher, massacrando-a naquela velha e pesada cruz. Não é mais possível fecharmos os olhos para a violência que sofre a mulher que aborta, física, psíquica, voraz, tirana e imperativa. Não é mais possível viver num Estado dominado por uma hipocrisia religiosa sem limites.

Eu aborto, tu abortas, ela aborta. Nós abortamos. E somos todas mulheres clandestinas e violentadas.

Anúncios

3 opiniões sobre “O aborto ilegal é uma violência contra as mulheres

  1. Bem, simpatizo com muitas causas feministas, mas desta vez estou assustada, acho algo desmedido o aborto, acho uma violência, um crime. A mulher é dona do corpo mas não da vida que está dentro dela, existem prevenção de gravidez eficiente hoje. O feminismo sempre falou do radicalismo da sociedade patriarcal, eu concordo, mais esta questão do aborto é bem mais ampla e complexa, exorbita este tema (da autoridade patriarcal). Trata-se de uma outra vida. Acho que as feministas ao defender a questão do aborto cegamente, argumentando de forma simplista “que a mulher é dona de seu corpo e pronto” estão incorrendo em essência no mesmo radicalismo da sociedade patriarcal.

    Curtir

    • Cecília,
      na minha concepção e na concepção de inúmeros cientistas e profissionais de saúde, violência é uma mulher ser submetida à ilegalidade de um aborto inseguro. As consequências de ilegalidade do aborto são desastrosas, como a morte das mulheres que ousam se submeter a ele de formas violentas e dolorosas. Aborto não é assassinado. Aborto é a interrupção da gravidez. Um feto de doze semanas não é um bebê. É um conjunto de células que se convencionou chamar assim. Nos países desenvolvidos o aborto é legalizado e sabe pq? Pq vai para além da questão da autonomia da mulher, que já é muito importante. É questão de saúde pública. As mulheres já abortam. A diferença entre aqui e países onde é legalizado é que onde é legalizado ele é feito de forma segura sem sequelas para mulher. A criminalizarão é só uma forma de punição patriarcal sim. Quem é contra o aborto é simples: não o faça. Não aconselhe suas amigas a fazerem. Mas para mulheres que só vêem essa alternativa, elas devem ser respeitadas em suas decisões e não colocar a sua vida em risco.

      Curtir

    • Lembrando que “trata-se de uma outra vida” é relativo.
      Se você acha assim, não aborte nunca. Na sua concepção isso é um assassinato, e realmente acho que você nem ninguém deve cometer assassinatos.
      Mas a percepção da vida, se é no momento da concepção ou não, é fundamentalmente religiosa.
      E como tal, não é nem nunca será unânime.
      Existem milhares de religiões e existem os ateístas.
      E quem acha que a vida começa na concepção não pode querer restringir um direito aos que acham que um amontoado de células não é uma pessoa.
      Não é uma questão só de “o corpo é da mulher”, é uma questão de que as crenças também são da mulher. Crença cada um tem a sua. E a de quem acha que tem vida desde o primeiro dia não é mais ou menos válida do que a de quem não pensa assim.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: