Tradução: Bravo para Wendy Davis, mas o aborto das mulheres não é da sua conta

* Faltam 18 Dias para o Dia Latino Americano de Descriminalização do Aborto *

Bravo para Wendy Davis, mas o aborto das mulheres são é da sua conta

Nem todas nós temos apoio para revelar as gestações que interrompemos. Nem todas nós queremos ser tão corajosas. E nenhuma de nós deveria ter que ser

Texto original de Jessica Valenti: Bravo for Wendy Davis, but women’s abortions are none of your business

Tradução de Iara Paiva

Quando seu livro de memórias chega às lojas no meio de sua campanha para governadora do Texas na terça-feira, os leitores ficarão a par de momentos extremamente pessoais na vida pública de Wendy Davis. Trechos iniciais do livro revelado no fim de semana mostram que Davis passou por dois abortos – um que encerrou uma gravidez ectópica perigosa e outro que pôs fim a uma gravidez no segundo trimestre depois que um médico constatou anormalidades fetais graves.

Em um clima político tão hostil às mulheres e aos direitos reprodutivos, esse tipo de divulgação é, sem dúvida, corajosa. Mas em um mundo onde não há privacidade para as mulheres e seus corpos, é vergonhoso que temos de pôr a nu as nossas vidas reprodutivas apenas para que outros possam – talvez, se tivermos sorte – ver-nos como pessoas completas.

Porque, realmente, os abortos das mulheres não são da sua conta – nem mesmo aqueles de uma figura pública, nem mesmo aquela que se tornou uma figura internacional por causa do direito ao aborto. Não deveríamos ter de nos explicar ou justificar nossas decisões de vida: nossos abortos são só nossos.

Pesquisas mostram que falar com as pessoas sobre questões como o aborto ajuda a diminuir o estigma em torno de interromper uma gravidez. Mas por que as mulheres devem divulgar seus momentos mais íntimos para o mundo, para que as pessoas entendam o quão básico e necessário realmente é o direito ao aborto? Se você olhar de perto, na política mas não só, estas revelações não são histórias compartilhadas de boa vontade, já que são lembretes desesperadas da humanidade das mulheres.

Em 2011, por exemplo, Jackie Speier, deputada da California, revelou seu aborto no plenário da Câmara em meio a um debate que poderia ter cortado o financiamento federal para a Planned Parenthood ¹. Speier se sentiu compelida a dizer alguma coisa depois de um legislador New Jersey descreveu um aborto no segundo trimestre em detalhes:

Esse procedimento que você falou foi um procedimento que eu sofri. Eu perdi um bebê. Mas você se colocar neste plenário e sugerir, como você fez, que de alguma forma este é um procedimento que é ou bem-vindo, ou feito com desprezo ou sem qualquer reflexão é absurdo. “

Os comentários de Speier chegou em um momento em que a maior provedora de serviços de saúde reprodutiva das mulheres estava sob um ataque de grande escala pelo Partido Republicano², um ano em que os estados promulgaram um número recorde de restrições ao aborto, quando a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que autoriza hospitais a deixar as mulheres morrem, em vez de dar-lhes um aborto para salvar vidas.

Mas Speier não foi a primeira mulher a declarar ter feito um aborto e levar o “debate” da teoria desconectada para a realidade da vida das mulheres.

Em 1971, feminista Simone de Beauvoir publicou “Le Manifeste des 343”, uma demanda pelo direito ao aborto seguido de uma lista de pessoas divulgando seus abortos. O manifesto, publicado quatro anos antes de o aborto ser legalizado na França, condenou o sigilo em torno de abortos ilegais, dizendo que as mulheres estavam “veladas em silêncio”. Em sua edição inaugural, um ano depois, a revista Ms correu uma lista similar. Um ano depois, Roe v Wade legalizou o aborto nos EUA.

Então talvez divulgações aborto levem ao progresso: Hoje, na campanha 1 em cada 3 – um aceno para uma em cada três mulheres americanas que farão um aborto em sua vida – apresenta histórias de mulheres (e alguns homens) falando sobre suas experiências com o procedimento. Como Steph Herold, vice-diretora do Sea Change Program, me disse depois dos trechos do livro de Davis tornarem-se um viral na sexta-feira à noite:

Amigos que compartilham histórias com amigos, familiares compartilhando com os membros da família – isso tem o potencial de mudar as atitudes.

Herold acrescentou que figuras públicas – heróis – como Davis que falam sobre o aborto, também abrem as portas para outras mulheres divulgarem e compartilharem as suas experiências.

Mas nem todas nós temos a rede de apoio Wendy Davis. Nem todos nós queremos ser tão corajosas. E nenhuma de nós deveria ter que ser. “As pessoas não deveriam ter que divulgar momentos íntimos, pessoais e dolorosos, a fim de mudar os corações e mentes sobre uma questão,” Herold disse-me.

Não há dúvida de que as passagens sobre o aborto das memórias de Davis irão ecoar nas mulheres, especialmente aquelas que sofreram interrompendo gestações desejadas. E ler algo assim – em num momento em que as clínicas tão necessárias estão fechando e a suprema corte dos EUA declarou que a intimidação de mulheres vulneráveis do lado de fora das clínicas de aborto qualifica-se como “liberdade de expressão” – é compreender como é errado legislar sobre cuidados médicos familiares:

Eu podia sentir seu pequeno corpo tremer violentamente, como se alguém estivesse a aplicando um choque elétrico nela, e aí eu soube o que precisávamos fazer. Ela estava sofrendo… No escritório de nosso médico, com lágrimas caindo dos rostos de amnos, Jeff e eu olhamos para coração pulsante da nossa filha bebê na tela ultra-som pela última vez. E vimos como o nosso médico o calou. Era o fim. Ela tinha ido embora. Nosso bebê muito amado se foi. “

Compartilhar um momento como este é um ato que vai além da generosidade. Mas isso não deve ser necessário.

Notas da tradutora

¹ Planned Parenthood é uma ONG internacional que promove saúde e direitos reprodutivos.

² No original, “GOP”, a sigla para “Great Old Party”, uma maneira de se referir ao Partido Republicano.

 

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