Relato de Aborto

Esse emocionante relato de um aborto foi enviado para nós anonimamente por uma leitora do Rio de Janeiro. Sentimos muito pelo sofrimento dessa jovem, mas também comemoramos a coragem de expôr a sua história. Obrigada, C.M.S.

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Relato do Aborto de C.M.S, moradora do Rio de Janeiro, 26 anos.

Meu primeiro contato com aborto não foi com o meu aborto. Eu tinha dezesseis anos e morava em um condomínio popular na zona norte do Rio de Janeiro. Eu tinha uma amiga, mais nova, uma menina muito inteligente e bacana, a Carolina. Estudávamos em escolas próximas, éramos boas alunas. Compartilhávamos nossa paixão pelos backstreet boys, paquerávamos na pracinha. Eu sonhando em fazer enfermagem, ela querendo prestar faculdade de direito, como o seu pai.

Um dia meu interfone tocou. Era a Carol, com uma voz muito fraca e pedindo ajuda. Me assustei com aquele tom de voz, nunca tinha a ouvido assim. Subi as escadas do prédio correndo, pulando de dois em dois, como era nosso hábito de meninas. Nós éramos meninas que pulavam a escada de dois em dois para subir e de três em três para descer.

Abri a porta do apartamento e a Carol me chamou no banheiro. Tinha um rastro de sangue do interfone até lá. Cheguei no banheiro e ela estava nua sentada no chão, com o chuveiro ligado e tinha muito sangue misturado na água. Eu fiquei assustada. Entrei de roupa e tudo no chuveiro com ela. Tentei levantá-la para levar ao pronto socorro, ela resistiu. -Me Deixa aqui, só fica comigo.

Com dezesseis anos eu abracei a minha amiga, ali debaixo do chuveiro. A vi vomitar, empalidecer. Eu tive medo que ela morresse. Ela só tinha quatorze anos, e fui saber mais tarde que depois de se descobrir grávida ela tentou abortar se jogando da escada. E depois com a ajuda de uma professora conseguiu um comprimido abortivo que ela tomou chegando da escola. O efeito foi muito rápido e ela não imaginava a quantidade de sangue que ia sair. Foi extremamente assustador, solitário, inseguro. Se desse alguma merda a minha amiga ia morrer nos meus braços. E o que eu entendia de gravidez? Porra nenhuma. Tinha um namorado, mas era virgem, gravidez nem passava pela minha cabeça, muito menos aborto.

Algumas horas depois, o sangramento diminuiu. Peguei absorventes para ela, escolhi um pijama. Ficamos abraçadas na cama de solteiro dela esperando a mãe chegar. Montamos uma história: a Carol passou mal na escola, eu vim ajudar, dei uma novalgina pra ela e acabamos as duas pegando no sono.

A mãe dela chegou do trabalho e não perguntou nada. Ofereceu jantar para mim. Falei pra Carol que ela precisava comer alguma coisa. Comemos em silêncio. Alguns meses depois eu me mudei e perdemos o contato, e eu achei que aquilo nunca ia acontecer comigo. Mas aconteceu.

Comecei a trabalhar num call center no centro do Rio assim que terminei a escola. Rolava um flerte com um cara do trabalho, mas nada sério. Tomávamos um chope nas sextas feiras sempre acompanhados de outras pessoas do trabalho. Um dia ele me ofereceu uma carona. Aceitei. Nunca deveria ter entrado naquele carro.

A gente acha que violência sexual e aborto são coisas muito distantes da gente, que acontecem com os outros. Mas aconteceu comigo. Reparei que esse colega não estava indo em direção a minha casa. Pedi para ele parar o carro. Ele dizia que queria me mostrar a vista mais bonita que ele tinha visto na vida. O tom era estranho, ameaçador. Ele nunca tinha falado comigo assim. No alto da Boa Vista eu fui estuprada por um colega de trabalho. Eu gritava. Ninguém ouvia. Ele me bateu muito, e claro, não usou camisinha. Quando ele terminou tudo, como se nada tivesse acontecido começou a dirigir e me deixou na porta de casa.

O medo era tanto, que eu não tive forças para denunciar. Todo mundo sabia que a gente flertava, todo mundo viu que eu tinha pegado aquela carona. Como dizer que foi um estupro e não sexo consentido? Aquele pulha, aquele canalha tinha muitas coisas a seu favor. Eu só tinha meu corpo machucado para esconder dos meus pais e dos meus irmãos. Dei uma desculpa e nunca mais botei os pés no trabalho.

Naquele mês minha menstruação atrasou e eu logo soube o que estava acontecendo. Era óbvio que eu estava grávida. Me veio na cabeça a Carol, com quatorze anos se esvaindo numa poça de sangue. Como sou religiosa cogitei levar a gravidez adiante e ser uma super mulher. Mas logo desisti dessa ideia. Eu tava dilacerada, eu tava machucada no corpo e na alma. Eu não queria ter um filho de um bandido. Fiz um teste de farmácia, estava lá, positivo. Eu não sabia que o aborto em casos de estupro era legalizado. Fui numa Lan House no bairro e pesquisei na internet sobre cytotec. Não achei nenhuma dica de como conseguir, apesar de achar como usar. Eu não tinha dinheiro para ir numa clínica, o que eu ia fazer? Liguei para uma prima mais velha, de quem eu era próxima na infância. Ela não era religiosa, e eu não sabia qual a posição dela sobre aborto, mas era a única pessoa com que eu tive coragem de falar. Nos encontramos em um bar no Méier, ela sabia onde conseguir cytotec. Eu não tinha o dinheiro, cada pílula custava 200 reais e para ter certeza do aborto precisava de quatro segundo ela. Me desesperei. Ela vendo meu pânico, disse que ia pagar e que depois quando eu conseguisse, eu pagaria para ela. Dois dias depois ela me entregou um envelopinho branco e falou para eu inserir duas na vagina e deixar duas entre a bochecha e a gengiva. Mas onde eu ia fazer isso? Minha casa tinha dois quartos e eu dividia com a minha mãe, meu pai e meus irmãos. Nunca ficava vazia. A minha prima não queria se envolver mais do que já tinha se envolvido. Minha única alternativa era a madrugada.

Esperei todo mundo na minha casa dormir. Fiz como minha prima ensinou. A todo momento lembrava da Carol. Lembrava dos vômitos, da dor. Me tranquei no banheiro com panos de chão e toalhas velhas. Enquanto todos dormiam, eu provocava um aborto. Enquanto todos dormiam, eu dava fim a um pesadelo que começou naquele carro no alto da boa vista.

Felizmente meu sangramento não foi tão traumático quanto o da minha amiga. Na madrugada eu saí do quarto e fiquei deitada no escuro sozinha, pensando que provávelmente em outra casa a mesma coisa estaria acontecendo. Senti muita culpa, por conta da minha formação religiosa. Tenho muita fé em Deus, e hoje entendo que apesar dos dogmas da igreja que eu frequento, se meu Deus é amor, ele entende exatamente o que aconteceu. Ele me ama nas minhas imperfeições, ele me ama mesmo eu não tendo tido coragem de ser a mulher maravilha que ia criar o filho de um estuprador.

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2 opiniões sobre “Relato de Aborto

  1. Esse relato me emocionou profundamente. É com histórias como dessa carioca que podemos, se estivermos abertos a isso, refletir sobre que opinião ter quanto à descriminalização do aborto. Parabéns por sua coragem! C.M.S.

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