Você Sabia?

– Que em mais de 70% dos países do mundo o aborto é legalizado?

– Que pelo menos 250 mil mulheres vão parar no SUS todos os anos por consequências de abortos inseguros?

– Que no Brasil cerca de 10 mil mulheres morrem por ano em consequência de complicações por conta de abortos ilegais?

– Que desde 1891 o Brasil é um Estado Laico e que isso quer dizer que conceitos religiosos não devem pautar o poder público?

– Que a atual legislação sobre aborto no Brasil data de 1940, ou seja, está desatualizada?

– Que no Brasil já existem casos onde o aborto é legal: risco de vida para mãe, gravidez fruto de estupro e em casos onde o feto possui uma anomalia incompatível com a vida? 

– Que uma mulher que se submete a um aborto clandestino pode ser penalizada com até 3 anos de detenção, e que essa pena é maior do que muitas contravenções graves como atropelar, matar e fugir sem prestar socorro para vítima?

Fiquem com o texto de Luiz Ruffalo sobre a legalização do aborto.

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Maternidade é Escolha

˜ Faltam 20 dias para o Dia Latino Americano de Luta pela Descriminalização do Aborto ˜

Apesar das vozes contrárias, a maternidade não é uma missão sagrada, nem toda mulher sonha em ser mãe e maternidade não é obrigação de quem nasceu mulher. Maternidade não é um dever, mas sim um direito que pode ser exercido se a mulher assim o desejar.

A sociedade já naturalizou tanto o fato de que a mulher deseja ser mãe e só assim se torna completa que penaliza as mulheres que querem uma história diferente para si. Que não querem ter mais filhos, ou que não querem ter nenhum.

Se o método contraceptivo falhou, ou se essa mulher não usou um método contraceptivo não é problema meu, seu, da sociedade, da vizinha, de ninguém. Aconteceu uma gravidez indesejada e essa mulher deve ter o direito de interrompê-la. A moralização da questão não trás nenhum ganho real para o debate – criamos uma lista de “condições” para que a mulher direita mereça um tratamento adequado e que as outras não. Esses critérios subjetivos não livram nenhuma mulher do julgamento – primeiro por ter transado, segundo por ter engravidado, terceiro por não desejar levar a gravidez adiante.

A psicóloga Nalu Faria, líder da Marcha Mundial das Mulheres dá uma aula esclarecedora sobre o tema para os estudantes da Unesp. Se eu fosse você dava um play agora.

Parte 1

Parte 2



Parte 3

Bienal de São Paulo e uma obra ativista

 * Faltam 21 Dias para o Dia Latino Americano de Descriminalização do Aborto *

O Grupo boliviano de artistas Mujeres Creando fez uma corajosa instalação na Bienal de São Paulo.

Quando a curadoria convidou o grupo, elas ofereceram a instalação sobre aborto. A Bienal alegou que era um tema polêmico e pediu outra instalação. O Grupo bateu o pé. Disse que só trataria a instalação sobre aborto e só viria se conseguisse um lugar de destaque logo na entrada. Conseguiram.

mujerescreando

O grupo Mujeres Creando ainda enfrentou alguns contratempos. A plotagem das letras que fariam a frase “Lugar para Abortar” foi boicotada pela primeira gráfica brasileira que as atendeu. A organização da Bienal conseguiu outra gráfica a tempo que a instalação fosse montada para a abertura do evento.

Esse caso é muito emblemático a respeito de como se dá a discussão do aborto no Brasil e na América Latina – mesmo meio progressistas possuem receio de discutir o assunto. E quando o tema vem pra luz, o contra ataque é violento. Afinal é mais fácil controlar uma população desenformada, que trata o tema com preconceito, pelo viés obscurantista e não pela informação.

Falar sobre aborto é necessário.

O Mujeres criando teve essa coragem. A Bienal de São Paulo teve essa coragem.

Não vamos deixar nos calar.

Em seu blog na Carta Capital a jornalista Maíra Kubik fala como foi sua experiência na Instalação.

“Sentadas em roda, um grupo de dezenas de mulheres ouve, com atenção, aos depoimentos daquelas que resolveram interromper voluntariamente uma gestação. Estamos no primeiro final de semana da 31ª Bienal de Arte de São Paulo e cada uma que dispõe-se a falar sobre seu aborto tem que entrar literalmente dentro da instalação proposta pelo grupo boliviano Mujeres Creando, uma armação enorme de metal que representa duas pernas abertas e alguns úteros, cercados de panos vermelhos. É nesse lugar, que representa simbolicamente onde um futuro bebê se alojaria, que as depoentes reivindicam o direito ao próprio corpo.” – Diz Maíra.

A 31ª Bienal de São Paulo acontece  no Parque Ibirapuera, Portão 3, Pavilhão Ciccillo Matarazzo
04094-000 – São Paulo-SP – Brasil. Maiores Informações aqui.

 

Este é o meu aborto

Uma garota americana fez um aborto e tirou fotos com o seu celular.

A intenção dela é que as pessoas vissem a aparêcia real de um aborto.

Muitas vezes quando procuramos informações sobre aborto na internet nos deparamos com imagens chocantes de bebês mortos, violados, mutilados. Essas imagens são falsas e fazem parte de uma guerra simbólica e discursiva. Essas imagens nada tem a ver com a realidade do procedimento que é interromper uma gravidez de forma legal e segura.

Para saber como é a aparência real de um aborto numa clínica legalizada, basta clicar aqui no blog This is my abortion.

 

O “navio do aborto” ajuda mulheres em Países onde a prática é proibida

(Faltam 23 dias para o Dia Latino Americano de Luta Pela Descriminalização e Legalização do Aborto)

Uma médica Holandesa ajuda mulheres onde a prática é proibida.

Em um navio em águas internacionais ela aplica corretamente uma pílula de Misoprospol e acompanha o processo de abortamento.

Com assistência adequada, e no estado inicial da gravidez o procedimento é seguro e com risco baixo de sequelas.

Veja o vídeo sobre essa iniciativa aqui: http://tvuol.uol.com.br/video/navio-do-aborto-ajuda-mulheres-que-vivem-em-paises-onde-pratica-e-proibida-04028C9A3862E0895326

Contagem regressiva

Hoje é dia 4 de setembro. Faltam 24 dias para o dia 28 de setembro, Dia Latino Americano de Luta Pela Descriminalização e Legalização do Aborto.

Muitas pessoas falam “ninguém é a favor do aborto, mas acho que a mulher tem o direito de fazê-lo”.

Queria entender quem é esse “ninguém”.

Eu sou a favor do aborto e muitos homens e mulheres também são a favor que o procedimento seja descriminalizado, que as mulheres que decidem interromper a gravidez tenham assistência adequada na rede pública, com suporte físico e emocional.

Somos a favor da autonomia, que sejam respeitados os direitos sexuais e reprodutivos de cada mulher. Que seu corpo não seja motivo de controvérsias e moralismos vazios de sentido e sim apenas o corpo que pertence àquela mulher.

Para os que são contra o aborto, basta não fazê-lo.

Para os que são a favor, um longo caminho de lutas ainda deve ser percorrido.

Somos todas clandestinas

Uma em cada cinco mulheres no Brasil já realizou um aborto.

Você pode não saber, mas alguma mulher do seu convívio certamente já interrompeu uma gravidez.

Elas não são más, cruéis, insensíveis. Elas são suas amigas, sua chefe, sua filha, sua prima. Sua mãe pode ter abortado. Sua avó também.

O silêncio que se abate sobre essas mulheres é imposto pela desinformação e pelos tabus a respeito do procedimento, dos motivos, da vida dessas mulheres.

O blog Somos Todas Clandestinas possuem relatos de diversas mulheres que passaram pelo processo voluntário de interrupção da gravidez e protegidas pelo anonimato puderam falar livremente sobre o assunto.

É uma excelente fonte de informação para desmitificar a ideia pré concebida de quem são essas mulheres. São jovens, são coroas, são brancas, são pretas, são ricas, são pobres, são religiosas ou não comungam de nenhuma religião. São diversas. E todas elas passaram por uma experiência de medo – não por decidirem abortar, mas por terem que se submeter a um aborto em condições de ilegalidade, colocando suas vidas em risco, sem apoio, em segredo.

Vale a pena a leitura.

A ilegalidade mata mais que o aborto

São muitos casos de mulheres que após serem submetidas a abortos violentos e inseguros acabam não sobrevivendo.

Elas têm medo de procurar ajuda na rede pública pois sabem que podem ser hostilizadas, machucadas, violadas. O moralismo e a desinformação impede que médicos as atendam adequadamente. A ilegalidade do aborto faz com que alguns profissionais se sintam no direito de punir mulheres que abortam com a morte.

Hoje, uma mulher de 27 anos, mãe de dois filhos está desaparecida depois de tentar fazer um aborto em uma clínica clandestina. Ninguém sabe o que aconteceu com essa mulher. Seu desaparecimento é mais um triste capítulo da irracionalidade que é um País proibir que mulheres tenham autonomia sobre seus direitos sexuais e reprodutivos.

 

O caso: Mulher desaparecida após ser levada para clínica de aborto

 

A obstetriz Maira Liberdad comenta o caso:

“Uma mulher está desaparecida há dias no Rio de Janeiro, tendo sido vista pela última vez quando entrava em um carro para ir a uma clínica clandestina para fazer um aborto, no Rio de Janeiro. Ela tem dois filhos (de 9 e 12 anos), um emprego, uma mãe que está desesperada atrás dela, um ex-marido que ficou durante horas esperando ela voltar no lugar marcado. Ela tem 27 anos. Ninguém tem qualquer notícia dela, apenas se sabe que ela continuou na clínica após outras mulheres que estavam juntas terem retornado.

As mulheres fazem abortos. Isso é um fato que a ilegalidade da coisa não muda. Elas merecem morrer? Ser presas? Exploradas por gente que se aproveita de um momento de fragilidade para ganhar dinheiro? Seus filhos merecem ficar órfãos? Suas famílias merecem que desapareçam? Suas mães merecem sofrer sem notícias? Nós e nossas filhas, irmãs, mães, companheiras, amigas, merecemos morar num mundo que permite que coisas assim aconteçam?

Até quando?

Pois é, Maira. Até quando a vida das mulheres vai ser regulada por questões morais e religiosas?

Gostaria também de ter uma resposta para essa pergunta.

O aborto ilegal é uma violência contra as mulheres

Nós defendemos que o aborto ser ilegal é per se uma violência contra a mulher. Nesse texto da Silvia Badim (Doutora em saúde pública pela USP) originalmente publicado no blog Biscate Social Clube, a pesquisadora expõe com muita clareza os nossos argumentos.

– O aborto já é feito no Brasil. Entre 800 mil e 1,5 milhão de mulheres o realizam todos os anos.

– Jogar essas mulheres na clandestinidade é colocá-las em situação de risco de morte e de violência.

– Jogar o problema para debaixo do tapete só gera medo e desinformação.

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As mulheres abortam. A todo tempo. Todo mundo conhece alguém. Todo mundo conhece um caminho. Todo mundo já fez, já passou, conhece alguém que passa, ou passará. Óbvio, assim, bem óbvio. E no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.

É, o aborto mata mulheres. E, quando não mata, deixa dolorosas marcas físicas e psíquicas nas mulheres que precisam se submeter a uma clandestinidade violenta para terem acesso, e direito, sobre seu próprio corpo. Sim, falar sobre aborto é falar sobre direito da mulher. Direito à dignidade, à integridade física, e à saúde.

O Artigo 196 da Constituição Federal, por exemplo, estabelece que o direito à saúde é um direito integral e universal de todos os cidadãos deste país. Um direito que passa pelo direito à prevenção, recuperação e proteção da saúde. Bom, não seria digno, justo, e – até – legal, garantir que as mulheres que desejam fazer um aborto o façam de forma segura, sem riscos à sua saúde? Direito Constitucional, baby. Que só não é garantido porque vivemos, lamentavelmente, em uma sociedade hipócrita, permeada por velhos moralismos religiosos.

Imaginemos uma cena corriqueira, que está aqui entre nós, nos cotidianos de todos os cantos: uma mulher engravida e não quer, não pode, ou não consegue, levar essa gestação adiante. Susto, medo, dúvida, assombro. Coragem, força, luta. Como essa mulher faz para dispor do seu corpo como bem entender?

Bom, se essa mulher é rica, ou tem grana, fica mais fácil: paga-se o conforto e a segurança para o procedimento abortivo. Sim, aborto também é uma questão social e econômica. Quem pode pagar, se dá melhor. Claro, capitalismo é capitalismo na legalidade ou na clandestinidade. E é dessa desigualdade que ele se alimenta. Então, se tem dinheiro na jogada, a violência é menor. Ampara-se a mulher, minimamente. Faz-se o aborto com maior segurança. Claro que isso não impede que a mulher sofra a violência moral que permeia essa discussão toda: o julgamento, o dedo em riste, a vergonha, o dano psíquico. Marcas que doem sempre, como uma cicatriz que não se fecha. Mas se tem grana, dói um tanto menos. Porque o desamparo da saúde gera violências ainda maiores.

E se a mulher não tem dinheiro? Bom, aí é onde a realidade é ainda mais cruel. E é aqui que mora a maioria da população brasileira. Aqui a clandestinidade é marcada pela falta de assistência e pela violência física. Ela aborta sem qualquer segurança, e sofre no corpo a posição de um pseudo Estado laico, que não garante seu direito de escolha. A mulher vai atrás de um remédio no mercado negro, um remédio bem fácil de conseguir em qualquer rede ou feira livre desse país. Ela vai atrás de uma clínica de fundo de quintal. Ela se submete a receitas caseiras perigosas. Ela aborta. E aí meu amigo, ela sofre uma violência imensa, sem que nossos olhos viciados consigam ver de perto o tamanho do problema.

E ele é grande. Os relatos dos serviços de saúde que, infelizmente, não constam em dados científicos, se repetem. As mulheres chegam doentes aos hospitais. Muitas, esvaindo-se em sangue, em desmaios, em dor dilacerante. Muitas, perdendo seus órgãos reprodutivos e, quiçá, outros mais. Muitas em infecção profunda. E muitas outras, mas muitas outras mesmo, em quase morte. E elas morrem. E nesse percurso sofrem preconceitos e discriminações por parte dos profissionais de saúde, assistentes, secretários, e tantos outros que se recusam, até, a atenderem essa mulher “criminosa”.

Dados da OMS estimam que, no Brasil, a média de abortos anual é de um milhão. É, acreditem. Um milhão. Temos também as estimativas do Ministério da Saúde, que entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetem ao procedimento anualmente no Brasil. E a cada dois dias, uma mulher (sem recursos) morre em decorrência do aborto. E a gente continua fingindo que este não é um sério problema de saúde pública.

Como diz o obstetra da Universidade Federal de São Paulo Osmar Ribeiro Colas: “Quando cai um avião ficamos chocados, mas há dois Boiengs de mulheres caindo por dia e ninguém fala nada”. Lamentável, certamente. E eu lamento todos os dias, juntando forças para seguir na luta pelo aborto seguro e legal no Brasil.

Vamos seguir mais um pouco?

A Pesquisa Nacional sobre Aborto no Brasil – PNA, empreendida por Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília e membro da ANIS – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, e por Marcelo Medeiros, desta mesma entidade, revela que:

…o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar quarenta anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto. Tipicamente, o aborto é feito nas idades que compõem o centro do período reprodutivo feminino, isto é, entre 18 e 29 anos, e é mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional. A religião não é um fator importante para a diferenciação das mulheres no que diz respeito à realização do aborto. Refletindo a composição religiosa do país, a maioria dos abortos foi feita por católicas, seguidas de protestantes e evangélicas e, finalmente, por mulheres de outras religiões ou sem religião” (Diniz e Medeiros, 2010. P. 964. In: Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna. Ciência & Saúde Coletiva, 15(Supl. 1):959-966).

E continuam os autores:

“O uso de medicamentos para a indução do último aborto ocorreu em metade dos casos. Considerando que a maior parte das mulheres é de baixa escolaridade, é provável que para a outra metade das mulheres, que não fez uso de medicamentos, o aborto seja realizado em condições precárias de saúde. Não surpreende que os níveis de internação pós-aborto contabilizados pela PNA sejam elevados, ocorrendo em quase a metade dos casos. Um fenômeno tão comum e com consequências de saúde tão importantes coloca o aborto em posição de prioridade na agenda de saúde pública nacional” (p. 964).

Deixemos o moralismo de lado, pelo menos um pouco. Todas as mulheres abortam, até as católicas e evangélicas, segundo a PNA. Não é mais possível evocarmos direitos de um possível feto em detrimento do direito da mulher, massacrando-a naquela velha e pesada cruz. Não é mais possível fecharmos os olhos para a violência que sofre a mulher que aborta, física, psíquica, voraz, tirana e imperativa. Não é mais possível viver num Estado dominado por uma hipocrisia religiosa sem limites.

Eu aborto, tu abortas, ela aborta. Nós abortamos. E somos todas mulheres clandestinas e violentadas.